
DIALETICA E SOCIALISMO
Com Marx e Engels começo-se a discutir concretamente como fazer para mudar e implantar uma sociedade mais justa. É com eles que começa a socialismo cientifico, isto é, uma ciência para colocar em prática esses ideais.
Marx tomou três coisas que estavam em voga na sua época e as colocou juntas:
a) A dialética isto é, uma teoria que afirma: tudo contém em si a sua contradição (tudo o que é temporal é imperfeito e relativo). Essa teoria impulsiona à ação, mostra que tudo é imperfeito e pode sempre ir melhorando. Não se pode parar.
b) A economia política inglesa, baseada, principalmente, nas idéias de Adam Smith e David Ricardo. Basicamente essas idéias diziam que todo valor é fruto do trabalho humano: a fonte de único das riquezas.
c) O socialismo, isto é, as idéias de igualdade, solidariedade, justiça para todos. Democracia.
Juntando essas três idéias, teremos o que se chamou de socialismo científico, ou possível, ou capaz de ser colocado em prática: a) a convicção de que é possível mudar (dialética); b) a descoberta de que é o trabalho que produz tudo( teoria do valor); c) a igualdade de todos(socialismo).
O que aconteceu depois disso? As coisas começaram então a estremecer. A estratégia foi logo começar a trabalhar com os que faziam tudo – os trabalhadores: são eles que produzem tudo (“o trabalho é a fonte de riquezas” ). Por justiça, eles deveriam ser tomados em consideração, deveriam ser a fonte principal do poder, enquanto houvesse uma sociedade dividida, até que se chegasse a uma sociedade em que todos teriam os mesmos direitos e deveres.
É evidente que as idéias socialistas não nasceram do ar. Na medida em que começaram a ser postas em prática, começaram a mexer justamente com quem ditinha privilégios injustos. Concretamente, foi contra o capitalismo que os socialistas começaram a lutar. E quem começou a lutar foram justamente os trabalhadores. Aliás, a grande luta do socialismo é contra o capitalismo. É importante ter em mente que capitalismo separa os meios de produção (capital) do trabalho. Se não há isso, não há capitalismo. Mas por que faz isso? Justamente para dominar o trabalhador (relação de dominação, isto é, em que um é dono) e principalmente para explorar, isto é, tirar para si (para o capital) parte do trabalho. Sendo que é “o trabalho que é a fonte única das riquezas”. Os donos dos meios de produção (do capital) só podem se enriquecer na medida em que tiram (expropriam, exploram) parte do trabalho do trabalhador.
Nessa altura, a gente vai entendendo melhor o surgimento do socialismo. As pessoas acreditavam que era possível mudar (dialética); queriam igualdade e justiça (socialismo); não existia nem mudança nem igualdade porque o capital não deixava mudar e havia exploração do trabalho. Assim aos poucos, os trabalhadores, foram se unindo, se organizando e exigindo seus direitos. A luta foi difícil. Muitos trabalhadores morreram. Outros melhoram bastante.
As maneiras de se fazer isso também foram muito diferentes. Em alguns lugares (como nos países que continuaram capitalistas) os trabalhadores se contentaram em melhorar seu salário. Em outros lugares, houve confronto direto entre trabalhadores e donos do capital. Os trabalhadores conseguiram chegar ao poder, mandar. Mas aí aconteceu, aos poucos, uma coisa que não se previa: o grupo de gente que tomou o poder começou a mandar, a dominar e a explorar os que trabalhavam. Por isso, é preciso distinguir o socialismo científico enquanto teoria, e o movimento pela justiça e pela sua concretização.
O socialismo quer, concretamente, fazer com que o fruto do trabalho do trabalhador fique com ele; em outras palavras: que ele não seja explorado em seu trabalho. E acredita que só assim poderá haver justiça e igualdade para todos.
Aqui é importante fazer uma distinção muito necessária: o socialismo pretende a socialização dos bens de produção (daquilo que produz, isto é, terras, fábricas) e não aquilo que é produzido: bens de consumo. Alguns acham que já existe socialismo quando o que é produzido é socializado. Mas não é assim. Agora, o que acontece é o seguinte: o Estado (quando representa de fato cidadãos numa democracia verdadeira, e não quando o Estado são os capitalistas ou um grupo só) pode “socializas” algumas coisas absolutamente necessárias para todos, como a educação, a saúde, o transporte coletivo, a moradia, pode garantir a alimentação básica isto é, ninguém ira morrer de fome.
Realmente, não é fácil dizer o que é o socialismo, pois não existe um só, mas muitos, de diversos graus, de diversas matrizes.
O importante é o seguinte: em cada caso a gente precisa perguntar:
1) Há mobilização, organização do povo? Povo quer progredir ou está acomodado? Quanto mais mobilização, participação e vontade (fé e esperança) do povo em progredir, mais socialismo.
2) O povo está recebendo o justo preço de seu trabalho? O que ele faz, realmente fica para ele? Quanto mais o fruto do trabalho fica com quem trabalha, isto é, quanto menos alienação (separação entre o trabalho e o Fruto do seu trabalho) e exploração houver, mais socialismo.
3) Há realmente democracia na sociedade, isto é, os direitos de cada um são respeitados, e todos são tratados igualmente, ou há enormes diferenças, privilégios, injustiças? Quando mais igualdade (não uniformidades) houver, mais essa sociedade é socialista.
Ainda mais: nunca haverá uma sociedade socialista perfeita, pois tudo o que é histórico é imperfeito, é relativo. Um socialismo acabado iria contra o primeiro principio, pois tudo contém em si a sua contradição, tudo pode ainda melhorar.
O que se pretende evitar é a pratica da dominação e da exploração. Se alguém, por exemplo, possui um meio de produção, mas paga a cada trabalhador o preço justo de seu trabalho, tudo bem. E para haver socialismo não é preciso haver supressão total da propriedade privada, dos meios de produção, como queriam os socialistas extremados. Eu posso trabalhar num meio de produção que não é meu, sem exploração.
Não é tarefa de alguns dizerem qual é o melhor tipo de sociedade, isso depende do povo organizado. Dentro dos extremos, cada povo deve se organizar como quer, respeitando sempre as aspirações da maioria. Se pudéssemos englobar, talvez, os muitos tipos de socialismo, poderíamos dividi-los em duas categorias. Uma primeira, onde há maior coletivização dos meios de produção e a tomada do poder foi através dum processo revolucionário popular.
Uma segunda, que poderíamos chamar de socialismo democrático, onde se chegou ao poder através do voto; nesse caso se fazem apenas algumas reformas e as transformações se dão aos poucos.
(Por Bruno Maia)